Os seres invisíveis

Observador do cotidiano, mais uma vez perambulando pela famosérrima Rua XV. Quanta mulher gostosa, meu Deus. Pena eu ser lazarento de feio, morador de vila (mas sou trabalhador, vide minha famosa calça verde da Prefeitura de Curitiba, estava com ela no referido dia) e pobre.

Como estava com o dinheiro do busão contadinho nem pensar em pegar minha lista negra hehehe. Tinha uma papelada pra tirar xerox. É, foi se o tempo onde a palavra de um homem valia alguma coisa. Mas, deixando estas nuances de lado começei a analisar um fator interessante da nossa “puritana sociedade” (o post pra isto ainda está sendo pensado): os seres invisíveis.

Período natalino, Boca Maldita, coral cantando em trajes natalinos, gente, muita gente. Manifestação grevista, todos com vozes, todos sendo vistos… e os seres invísiveis? Em meio à multidão, não têm voz (ou será que nossos ouvidos não desejam escutá-los?), não têm história (ou será que não desejamos saber sobre suas vidas?) e permanecem invisíveis (ou será que nossos olhos não desejam vê-los?). Várias histórias muito interessantes que este mero observador relatará resumidamente.

Cadeira de rodas enferrujada. Nela, um senhor com o rosto cheio de rugas devido ao tempo e ao sofrimento. Imóvel, mudo, cabisbaixo. Várias pessoas desviam-se dele. Homem sentado no chão, dois cachorros por companhia.. Roupas sujas, um vasilhame à sua frente com algumas poucas moedas. A barba branca cobrindo-lhe o rosto. Faltava-lhe quase todos os dentes. Jovem deitado sobre o sol escaldante. Roupas pretas. As pessoas desviando dele vide a madame com seu puddle (ainda escrevo um conto sobre isto). Algumas com repúdio, outras com pena. Aparência jovem; o que o levou a chegar nesta condição? Quem sou eu para julgar.

Chapéu de palha, instrumento típico, parecia um bandolim, uma cantoria desafinada, quase incompreensível. Saias coloridas, detalhes dourados pelas mãos e pescoço. Vamos ver o futuro moço forte? Sim, me diga quais serão os números sorteados na Mega Sena da virada?

Sentado no banco da praça. Ouço uma voz. Coca-cola 2 litros edição natalina em suas mãos, gorro da Nike, entoando em seu inglês arcaico U2 – I still haven’t found what i looking for… Sim, ele tem cultura, sim ele é feliz (ou tenta). Em coro aumentei minha voz e cantei o refrão junto com ele. Os dois executivos vendo a cena pensando: cada maluco. Mas, são estas “loucuras” que nos deixam felizes. Ele permaneceu invisível e eu fui pegar o vermelhão.

Pela janela pude observar papelões protejendo seus corpos, alguns cobertôs velhos. Alguns em sono profundo tentando acordar do pesadelo; outros; olhos tristes e pensativos. Um pouco à frente, a garrafa de pinga compartilhada com a companheira, uma carícia no rosto dela, uma carícia no rosto dele… Sim, eles também amam.

Chego em casa, descanso sobre minha cama de solteiro embaixo da escada satisfeito com o pouco que tenho.

E você, ainda vai reclamar de barriga cheia!!! Agradeça pelo que você tem.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s