Primeira série

Pois é já estamos em fevereiro. Em poucos dias milhões de estudantes do nosso querido país voltam as aulas. Minha adorável sobrinha que vai adentrar a primeira série do ensino fundamental (na minha época ainda se chamava primário), com todo o seu jeito encantador, pediu-me uma mochila de rodinha das princesas, uma caixa de lápis de cor e um caderno de desenhos. Poxa vida como o tempo passa. Ela sentou-se em meu colo, olhou-me e curiosa que é perguntou-me como era a minha primeira série. Ajeitei-me no sofá e contei pra ela.

1984. Não, não vou falar sobre o famoso livro. Morávamos numa vila do interior catarinense. Lembro-me que minha mãe deu-me um sermão um mês antes de eu ter meu primeiro dia de aula. Aquelas coisas que mãe sempre nos fala, estude meu filho para você ser alguém na vida. Não é que ela estava certa. Lembro-me do meu primeiro dia de aula como se fosse hoje.

Acordei-me as seis da matina com o cantar do galo (hoje não é diferente, bom não tem mais o cantar do galo, apenas sons de carros). O rosto lavado com sabão de pedra (sabonete na época nem sabia do que se tratava), o cabelo penteado, aquele café preto forte com duas fatias de pão, a roupa vestida (uma calça de brim azul e uma camiseta branca), a conga nos pés (na época dos meus pais iam de chinelo de dedo pra escola), a pasta escolar debaixo do braço com um caderninho de 40 folhas, um lápis preto e uma borracha. Minha mãe tinha um zelo ímpar para fazer a encadernação dos meus cadernos. Ela pegava pacotes de arroz, media-os, cortava-os, pedia minha ajuda para pregar o durex e ao término colocava uma etiqueta onde eu escrevia meu nome, a série e a matéria. Fez isto comigo até a quinta série e com todos os outros meus irmãos.

No primeiro dia minha mãe quis levar-me na escola, fiquei meio sem jeito e decidi ir sozinho. Antes de sair novamente aquele conselho de mãe. Passei a tramela no portão de nossa casa, minha mãe ficou olhando-me com um brilho no olhar. Lá fui eu. Pude observar diversas nuances de uma manhã de verão interiorana. As chaminés das casas espelindo fumaça no ar, os raios de sol atravessando por entre os galhos dos pinheiros, os quero-queros fazendo algazarra no gramado, as vacas sendo ordenhadas no curral, os guapecas latindo nas coxilhas, o som da serra-fita cortando madeira. Caminhava por uma estradinha poeirenta, passava por um pequeno córrego até chegar num mata-burro (pra quem não sabe é um portão feito em forma de V ou L para que as criações não saiam mas que permite a passagem de gente). Passando este mata-burro já avistava a escola. Mais 10 minutos cheguei na escola.

Era uma casa velha feita de madeira. No pátio existiam alguns pés de pêssego que eram disputados pela piazada na hora do recreio. A organização da sala era muito interessante. Havia um velho quadro negro, divido pela professora (dona Júlia) em quatro partes. Calma eu explico. Como não havia outras salas disponíveis a sala era dividida da primeira a quarta série, existiam quatro fileiras de carteiras, uma para cada série. Senão me engano na quarta série tinham apenas uma menina e um garoto, nas outras séries no máximo seis alunos. A professora desdobrava-se para passar matemática e português (as duas únicas matérias que existiam) para as quatro séries.

Desde a primeira série já gostava de resolver continhas (hoje estou enferrujado, nem uma integral polinomial consigo resolver rs). Quando a professora perguntava se alguém queria resolver a continha no quadro, erguia a mão e ia para o quadro resolver. Estava na primeira série mas por diversas vezes resolvia as continhas da segunda, terceira e quarta série. Na matéria de português gostava das estórias contadas pela cartilha que a professora lia.

O recreio então era a maior diversão, uma algazarra e um grande corre-corre de crianças. Por um tempo minha mãe foi a merendeira da escola. Todo o dia ela trazia uma bacia de pão fatiado e um balde de suco. Como era gostoso. As canecas eram compartilhadas pois não havia suficientes para todas as crianças.

Depois que a aula findava, perto do meio-dia, voltava pra casa, almoçava e a tarde fazia as tarefas que a professora tinha passado. E assim foi passando o ano. No final de ano letivo houve um conselho de classe com os pais dos alunos. Fiquei nervoso. Ao final correu tudo bem, minha professora teceu muitos elogios pelo meu desempenho, salvo algumas briguinhas no recreio (rs). Meu pai comprou-me uma conga e uma calça para eu usar no próximo ano de estudo.

Ao terminar de contar esta história para a minha sobrinha, ela olhou-me fixamente e disse: – tio, vou ser tão estudiosa e inteligente igual você foi. Eu, apenas dei-lhe um beijo em sua testa de felicidade.

A educação é o maior legado que os pais podem dar à um filho.

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Ao mestre

É com grande satisfação que presto uma homenagem ao meu grande amigo latino por mais uma etapa cumprida em sua vida: PARABÉNS grande amigo. Que tua vida seja repleta de conquistas como esta que conseguiste com muita dedicação e empenho, pois sou testemunha viva desta tua conquista. Mestre em Inteligência Artificial pela UFPR não é para qualquer um não. Sempre lembrarei das nossas conversas, animadas e filosóficas. Vida longa e próspera e que venha o doutorado.

O preço de estudar

Cá estou eu, fazendo hora extra, putz trabalhar das 22:00 hr de sexta até 14:30 hr de sábado é pra quem é homem com H maiúsculo. Viu, quem mandou não estudar, kkk, o bom humor eu não perco jamais.
Noite longa, pouco serviço, acesso alguns sites que falam sobre tecnologia da informação. Amanhece o dia, ligo para uma grande amiga que fiz aqui em Curitiba. Conversamos sobre diversas coisas, chegamos ao ponto de estudo. Falamos em pós-graduação, MBA, etc e tal, despedi-me dela e fiquei matutando aqui comigo. Estudar hoje em dia (superior e pós superior) é coisa pra quem tem dinheiro. Que tremenda injustiça. Eu sempre estudei em escola pública, universidade pública, porque meus pais não tiveram e não têm condições de pagar estudo, afinal, já me deram coisas muito mais valiosas: amor, respeito, dignidade e humildade.
Como sou uma pessoa proativa sempre penso em fazer mais cursos, em evoluir intelectualmente, mais vendo o valor que é cobrado pelas universidades, fica quase impossível estudar. Um curso que eu desejo fazer custa apenas 13 parcelas de R$800.00 (e este é o mais barato), ou seja, maior que o meu salário. Quantas pessoas ficam presas, desistem dos seus sonhos, quantos excelentes profissionais o mercado perde por causa de preços altíssimos de cursos. É vivemos na sociedade da exclusão, quem nasce em berço de ouro estuda, os outros, raríssimas exceções, conseguem estudar com muito esforço e sofrimento (aqui me incluo com muito orgulho).
É desestimulante ver tantos cursos que você gostaria de fazer e não ter provisões financeiras para tal (tudo bem que gastei muito dinheiro com putaria, mas fazer o quê, sou lazarento de feio, tímido e só tenho esta opção). E com isto continuamos perdendo excelentes profissionais pela falta de incentivo e melhores políticas de apoio ao ensino. Óbvio que melhoramos muito ao passar destes anos, mas ainda falta muita coisa por fazer. E por isto, por um bom tempo, ainda vou continuar sendo servente de pedreiro filósofo, assim é a vida, alguns têm tudo e nunca sofreram para tal, outros tem o mínimo para sobreviver conseguido com suor e sangue. Mas, o grande homem é aquele capaz de superar-se nas maiores dificuldades (que diga eu que por diversas vezes tive de andar duas horas a pé até em casa porque não tinha $$$ pra pagar o ônibus, bom pelo menos minhas pernas ficaram muito fortes rsc).
Eu mesmo, já me abstive de fazer muita coisa, por duas razões: preciso ajudar a família financeiramente e também porque pra mim, títulos pouco dizem para o valor de um ser humano. Prefiro ser um simples e honesto mortal do que um “PhD” hipócrita.