Bar Estrela

Depois de um tempo afastando aqui do meu quintalzinho virtual devido ao excesso de afazeres profissionais, eis que estou de volta para continuar relatando minhas concepções da vida, alguns pensamentos e muitas boas lembranças vividas. Esta história que relembrei e agora compartilho ocorreu-me na última viagem que fiz para Santa Catarina. Eis a história:

Sabadão, levanto-me cedinho, um bom amargo para adoçar o dia (rs), meu avô me ajuda a sorver o mate, algumas risadas, algumas prosas sobre a vida, mulheres e afins. Depois, vou fazer a barba, a gilete desliza suavemente sobre o meu rosto. Um bom banho, um perfuminho, uma roupa bacana e sigo em direção à rodoviária. En passant, um dia belíssimo (como hoje também está), céu azul celeste embelezando o verde da capital das araucárias.

Chego na rodoviária, compro a passagem, pego o ônibus e rumo em direção à Santa Catarina. Um trânsito caótico na saída de Curitiba devido as obras de duplicação da rodovia. O trajeto que era pra ser feito em duas horas, demorou quase três horas. No sábado, na cidade dos meus pais, o ônibus passa somente de hora em hora, logo, mais uma vez decidi ir a pé pra casa dos meus pais.

Antes de chegar à casa dos meus pais é possível escolher dois caminhos, desta vez escolhi o caminho que fazia tempo que eu não fazia. E justamente por escolher este caminho que recordei-me de uma lembrança da minha infância.

Estavas eu caminhando e apreciando a paisagem interiorana quando meus olhos enxergam uma construção antiga. Um casarão degastado pelo tempo, contendo uma porta ampla, o letreiro acima da porta faltando uma letra, formando a palavra BAR STRELA. Não contive a curiosidade, parei em frente ao bar, vislumbrei alguns velhinhos num canto conversando e tomando cerveja,  atrás do balcão o mesmo casal que sempre me atendia à quase 25 anos atrás. Ambos com marcas impiedosas que o tempo deixou em seus rostos.

Adentrei o bar e fiquei um tempinho observando o ambiente. Algumas coisas mudaram, outras coisas continuavam no mesmíssimo lugar. Aquele ar de nostalgia e interior era o mesmo. Para a minha surpresa o velho baleiro em formato hexagonal daqueles que possuem quatro bocas e giram estava ainda resistindo ao tempo e a modernidade. Comprei algumas balas de morango para levar aos meus sobrinhos. Me veio à tona lembranças da minha infância.

Lembrei-me da época em que o meu pai sempre me pedia para registrar seus jogos do bicho que ele fazia naquele bar. Meu pai sempre jogava no duque ou terno de dezenas e frequentemente ganhava alguns cruzados (ou cruzeiros não me lembro). Ele marcava sua aposta num pequeno papel, me entregava juntamente com o dinheiro da aposta e me pedia para eu ir até o bar registrar sua fézinha.

Toda vez que eu chegava no bar, ganhava algumas balas daquele mesmo baleiro que estava em minha frente. Apenas uma coisa era diferente desta vez, os velhinhos eram outros e não os mesmos de quase 25 anos atrás, culpa do tempo. Por muito tempo, semanalmente ia até este bar registrar os jogos do meu pai. Os donos sequer me reconheceram, paguei uma cerveja aos velhinhos e bora pra casa.

 

 

 

Olha o picolé

É curioso notar como algumas nuances do cotidiano nos remetem à fatos vivenciados à muito tempo em nossa vida.

Dia destes, tarde agradável de sol em pleno inverno curitibano (rs), depois de passar na lotérica fazer uma fézinha, depois passei no supermercado comprar uma caixinha de bolo petit gateau para fazer, algo me recordou de uma bela recordação da minha infância. No caminho do mercado passo por alguns adolescentes que estão andando de skate e conversando em uma esquina. Aquelas duas morenaças entre eles, ave-maria, corpos de mulher, bem, deixa quieto. Chego em casa, rapaz prendado que sou,faço o petit gateau e volto até uma sorveteria comprar sorvete de creme para acompanhar o petit gateau (nham). Vendo a enorme quantidade de sabores do buffet de sorvetes sou transportado no tempo para quase 25 anos atrás.

Meus pais sempre ensinaram eu e meus irmãos a valorizar o trabalho. Na minha descrição ‘quem sou eu’ conto que já trabalhei com diversas coisas em diversos diferentes lugares, e, também já vui vendedor de picolés.

Lembro-me que a minha madrinha de primeira comunhão tinha uns carrinhos de picolé e juntamente com os seus dois filhos vendíamos os picolés para ela em troca de uma pequena comissão que, na maioria das vezes, era utilizada para comprar figurinhas (história para outro post). Carinho abastecido de picolés e ‘moreninhas’ (sorvetes de bauninha ou creme em formato oval com cobertura de uma fina camada de chocolate, uma delícia), saímos em dupla vender os picolés.

Para chamar à atenção da clientela tínhamos um tipo de apito sonoro (me esqueci do nome) parecido com aqueles instrumentos de sopro que os peruanos utilizam nos concertos da Boca Maldita aqui em Curitiba (rs). Cada um possuía um jeito peculiar de ‘tocar’ o instrumento ‘compondo’ melodias próprias’. Com o passar do tempo já tínhamos nossa rota definida bem como nossos clientes fiéis. Lembro-me que eu sempre vendia cinco picolés de milho verde (rs) para um velhinho que morava perto da escola porque ele me achava parecido com um dos seus netos.

Era uma tarefa divertida, mas não era muito fácil. Tínhamos que empurrar o carrinho por ruas de chão entre as pedras, por ‘intermináveis’ subidas de paralelepípedo, mas sempre dávamos um jeitinho! Colocávamos alguns picolés a mais no carrinho para comermos durante o trajeto, sendo que o que eu mais apreciava era o picolé de nata.

Ficávamos chateados quando chovia no meio do caminho, voltávamos molhados para casa e não vendíamos nada. Outra coisa, a concorrência era super leal (fato raro hoje em dia) entre a gente e os outros vendedores de picolé, cada um tinha sua rota e clientela definida. Olhem, a gente andava, tinha dia que chegávamos a vender dois carrinhos cheios de picolé. Com a comissão em mãos corríamos para a banquinha perto da escola comprar figurinhas.

Voltei pra casa nostálgico e degustei o petit gateau com sorvete de creme.

A primeira comunhão e o trem

Sempre fui uma pessoa que acreditou em Deus, mas, sou avesso à dogmas e ritos religiosos. Na época devia ter uns 12 anos, minha família era católica e minha mãe matriculou-me na aulas de primeira comunhão que acontecia aos sábados numa sala que ficava ao lado da igreja do bairro. Atrás desta igreja tinha uma linha férrea que era a minha salvação, já entenderão o porquê.

As benditas aulas de primeira comunhão aconteciam todo o sábado cedinho, às 8 horas para ser exato. Juntamente com mais dois colegas andávamos meia hora até chegar na igreja. Olhem as ‘aulas’ eram um porre. A ‘aula’ era ministrada por uma beata alemoa que me fazia dormir na cadeira. Nunca entendi o porque devo me confessar com alguém que é um ser humano igualzinho a mim, cheio de defeitos e pecados. Entendo que devo confessar minhas transgressões diretamente ao Criador, sem precisar de intermediário. Também entendo que a fé, sem conotação religiosa, é capaz de proezas incríveis em nossa vida. O extremismo religioso só traz desigualdades e tristezas para as famílias.

No começo da aula era feita a chamada, depois havia um intervalo que salvava o nosso dia. Presença garantida na chamada, juntamente com meus colegas que vinham comigo pegávamos nossas malas, saímos de fininho até a estação ferroviária e ficávamos esperando o trem passar. Era uma aventura (perigosa) pegar o trem em movimento. Tínhamos que correr paralelamente ao trem e subir na escada que tinha nos vagões. Após estarmos em cima do trem era só alegria, sentávamos em cima de um vagão e admirávamos a bela paisagem até o trem chegar em outra estação que ficava no interior da cidade. Descíamos na estação e voltávamos a pé pelos trilhos do trem até chegar perto da rua onde morávamos.

E assim foram as aulas de primeira comunhão, salvas pelo trem, até chegar a missa de Primeira Comunhão. Um dia antes fomos obrigados a nos confessar com o padre, fui irônico com o sacerdote perguntando quantos Pai-Nossos eu devia rezar por ‘gazear’ as aulas da primeira comunhão e ir passear de trem (rs). Na missa, com toda a família reunida, fiquei num cantinho no início, sai pra fora de fininho pra conversar com as meninas atrás da igreja e só voltei na hora da hóstia (que engoli rapidamente). A única coisa que salvou foi o traje das meninas, todas de branco, algumas com tiaras na cabeça, com suas saias rendadas, algumas mostrando parte das coxas (hehe).

Vejam não estou dizendo que não é importante participar de algum evento religioso (missa, culto, etc), apenas estou citando alguns dogmas que fui obrigado a fazer a contragosto. Cada um de nós tem seu jeito de fazer suas preçes e seus momentos de fé.

Hoje vendo algumas fotos tiradas na época com aquela roupa social (camisa branca, calça social azul e gravatinha borboleta preta) dou risada daquela situação e me recordo do trem.

O primeiro discurso

Na época eu tinha 10 anos de idade, cursava a quarta série do primário. Lembro-me que era véspera da Semana da Pátria e sempre havia apresentações dos alunos para a comemoração da Independência do Brasil. Os professores escolhiam os alunos para fazer as apresentações e também escolhiam quem seria o orador que anunciaria a sequência destas apresentações.

Estava eu sentadinho na última cadeira da fila do meio da sala, aula de matemática, depois viria o recreio. Eis que adentra a sala a diretora da escola chamando pelo meu nome, gelei na hora!!! Ela pediu para que a acompanhasse até a direção. Pensei comigo: ferrou!!! Descobriram que fui eu que soltei o sapo no banheiro das meninas (isto é assunto para outro post).

Chegamos na direção, eu já tremendo de medo, ela vendo meu nervosismo indagou-me porque eu estava nervoso. Desconversei. Ela falou se eu estava disposto a ser o orador das apresentações da Semana da Pátria. Ai sim quase tive uma dor de barriga. Ela disse para eu pensar a respeito no recreio e dar a resposta no final das aulas. Depois de ficar o recreio todo num cantinho pensando a respeito (desde pequeno já pensativo), decidi aceitar.

Lembro-me que houveram dois ensaios para o discurso de apresentação, ambos à tarde. Peguei a folha com um discurso introdutório falando da importância da Independência do Brasil seguido da sequência de apresentações dos alunos (da fanfarra à recitação de poesia). Incrivelmente não gaguejei em nenhum momento dos ensaios.

Na sexta-feira era o dia da apresentação. Vesti uma calça de brim azul, uma conga e uma camisa branca daquelas estilo colegial. 15 minutos antes lá estava eu em frente ao mastro das bandeiras, microfone em punho esperando as professoras organizarem as filas. Todos em posição anunciei o Hino Nacional que foi cantado por todos. Depois de executado o Hino Nacional, li pausadamente o discurso introdutório e em seguida fui anunciando as apresentações. Até parecia um mestre de cerimônias (rs).

Esta experiência vivida aos 10 anos teve um papel fundamental para a formação da minha personalidade que culminou no discurso de oratória quase 20 anos depois na cerimônia de colação de grau do Ensino Superior. E o orgulho dos meus pais me vendo falar na frente de todos com apenas 10 anos de idade (não teve presente melhor do que isto).

Os caçadores de borboleta

Este mês terminei de ler o livro O Caçador de Pipas do escritor afegão Khaled Hosseini. Diga-se de passagem um livro extraordinário com uma lição de amizade e perdão singular. Isto me lembrou de algumas passagens da minha infância, também éramos caçadores, mas de borboletas.

Vivi toda a minha infância em pequenas cidades do interior catarinense. Sempre mantive mantenho quando posso o contato com a natureza. Teve épocas de minha infância onde uma de nossas brincadeiras favoritas era a de caçar borboletas para colocar num quadro.

Eu, meu irmão e meu primo tínhamos toda uma técnica para conseguir capturar as borboletas. Primeiramente juntávamos alguns sacos de batata, aqueles com rede amarela, depois pegávamos um cabo de vassoura velho e um arame para fazer o ‘coador’ (não achei palavra melhor e não me lembro qual nome deste artefato) para capturar as borboletas.

Depois desta etapa, os três partiam para a caçada nos campos que margeavam as nossas casas. Inúmeras vezes adentrávamos longe mata a dentro para tentar capturar as borboletas mais bonitas.

As borboletas totalmente verdes eram as mais raras e mais difíceis de capturar. Acho que em todas as nossas caçadas pegamos apenas umas duas ou três.

Tinham também as gigantes borboletas azuis que voavam muito alto e quase nunca conseguíamos pegar. Algumas eram tão fáceis de capturar que nem desejávamos capturá-las (aquelas de cor laranja que ficavam estáticas sobre as flores, senão me engano borboleta monarca.

Depois da captura das borboletas, trazíamos elas para casa, escolhíamos as mais bonitas e colocávamos elas num quadro. Tiveram alguns quadros que até vendemos para os vizinhos.

Hoje, sei que era uma brincadeira de criança, mas errada. Com a consciência da preservação do meio ambiente prefiro observar a beleza das borboletas livres no seu habitat natural. Quando os meus sobrinhos veem uma borboleta e pedem para eu pegar para eles, eu converso com eles sobre a liberdade dos bichinhos, ficamos bem quietos observando as borboletas e eles entendem que:

A verdadeira beleza é aquela que é livre.

Os pés de araçá

Desde pequeno que adoro conviver com a natureza. Já publiquei alguns posts sobre algumas peripécias da minha infância bucólica no interior catarinense. Sempre que posso adoro passear por parques, adentrar a mata e fazer uma caminhada. Isto renova as minhas energias.

Nestes meus 34 anos já perdi a conta de quantas árvores já plantei. A primeira árvore plantada eu me recordo. Eu tinha 5 anos de idade, ganhei uma mudinha de pinheiro araucária do meu pai e plantei num gramado que tinha perto da nossa casa de madeira. Quase 25 anos depois, por uma coincidência destas que o destino nos prega, juntamente com meu irmão passamos pelo local onde morávamos. Pra minha alegria, lá estava o pé de pinheiro, ainda em fase de crescimento.

O tempo foi passando, lembro-me dos pés de abacate, tinha que deixar a semente num vidro com água até adquirir um certo tamanho e depois fazer o plantio definitivo. Os pés de pêssego, de laranja, de mimosa, de café (sim plantei dois pequeninos pés de café em frente a casa da minha tia aqui em Curitiba).

Agora na Páscoa, juntamente com toda a família, fomos fazer um almoço campeiro numa chácara no interior catarinense. Já na chegada fui escalado para subir num grande pé de caqui para retirá-los para os meus sobrinhos. Numa sacolinha de plástico notei algumas mudinhas que logo reconheci serem pés de araçá-rosa. Peguei uma cortadeira, chamei meus sobrinhos para me ajudar e lá fomos fazer o plantio.

Como criança tem uma curiosidade já me perguntaram pra que eu queria plantar aquelas arvorezinhas (rs). Como bom tio expliquei o motivo e disse que as arvorezinhas davam frutinhas para comer. En passant, em frente a casa da minha tia também tem um pé de araçá-rosa. Chegamos perto de um tanque, eu fazia os buracos com a cortadeira, cada um plantava uma muda. Ao final suas mãos estavam pretas de terra. Ao todo plantamos 50 pés de araçá-rosa ao redor do tanque.

Chegando no velho casarão de madeira, já sentimos de longe o cheiro de um um churrasco sendo preparado. Eles correram contar a novidade para os meus pais.

Experimente um dia plantar uma árvore, as secretarias do meio ambiente doam mudas. Certamente que a natureza vai te agradecer. Existe até um projeto de um site de buscas (Eco4Planet) que incentiva o plantio de árvores quando você utiliza seu mecanismo de pesquisa.

Sobremesa

Dia destes, após o almoço, fui servir-me de um pouco de sobremesa, vi as travessas cheias de guloseimas que acabam com qualquer regime. Uma sobremesa específica chamou-me à atenção: era uma mousse de chocolate com amoras. Claro que peguei duas taçinhas desta sobremesa (rs). Fechei os olhos e recordei-me de momentos da minha infância.

Lembro-me que perto da nossa casa havia uma pequena mata onde eu, meu irmão e meu primo adorávamos brincar. Nesta mata havia muitos pés de amora silvestre. Pegávamos uma sacola, adentrávamos na mata e procurávamos amoras para colher. As amoras que colhíamos eram de dois tipos: uma maior e mais doce e uma menor e mais azeda. Durante a colheita das amoras era comum machucarmos nossos braços com os espinhos das amoras. É tudo tem seu sacrifício. Teve até uma vez que cai no meio de um urtigueiro, fiquei a tarde toda com uma coceira irritante nas costas.

Chegávamos em casa com a sacola repleta de amoras. Pedíamos umas canecas para a minha mãe. Colocávamos as amoras dentro das canecas, macerávamos elas juntamente com açúcar e comíamos com gosto. Até me deu água na boca de relembrar. Era muito legal ver nossas bocas, ficavam roxas.

Dia destes, brincando com meus sobrinhos de piquenique nesta mesma mata, eis que descubro um pé de amora. Claro que colhi estas amoras e comemos elas com açúcar igual eu fazia quando eu era criança. Ainda bem que posso relembrar e reviver algumas lembranças de minha infância, nossa mente adquire paz. Experimente você também.

Primeira série

Pois é já estamos em fevereiro. Em poucos dias milhões de estudantes do nosso querido país voltam as aulas. Minha adorável sobrinha que vai adentrar a primeira série do ensino fundamental (na minha época ainda se chamava primário), com todo o seu jeito encantador, pediu-me uma mochila de rodinha das princesas, uma caixa de lápis de cor e um caderno de desenhos. Poxa vida como o tempo passa. Ela sentou-se em meu colo, olhou-me e curiosa que é perguntou-me como era a minha primeira série. Ajeitei-me no sofá e contei pra ela.

1984. Não, não vou falar sobre o famoso livro. Morávamos numa vila do interior catarinense. Lembro-me que minha mãe deu-me um sermão um mês antes de eu ter meu primeiro dia de aula. Aquelas coisas que mãe sempre nos fala, estude meu filho para você ser alguém na vida. Não é que ela estava certa. Lembro-me do meu primeiro dia de aula como se fosse hoje.

Acordei-me as seis da matina com o cantar do galo (hoje não é diferente, bom não tem mais o cantar do galo, apenas sons de carros). O rosto lavado com sabão de pedra (sabonete na época nem sabia do que se tratava), o cabelo penteado, aquele café preto forte com duas fatias de pão, a roupa vestida (uma calça de brim azul e uma camiseta branca), a conga nos pés (na época dos meus pais iam de chinelo de dedo pra escola), a pasta escolar debaixo do braço com um caderninho de 40 folhas, um lápis preto e uma borracha. Minha mãe tinha um zelo ímpar para fazer a encadernação dos meus cadernos. Ela pegava pacotes de arroz, media-os, cortava-os, pedia minha ajuda para pregar o durex e ao término colocava uma etiqueta onde eu escrevia meu nome, a série e a matéria. Fez isto comigo até a quinta série e com todos os outros meus irmãos.

No primeiro dia minha mãe quis levar-me na escola, fiquei meio sem jeito e decidi ir sozinho. Antes de sair novamente aquele conselho de mãe. Passei a tramela no portão de nossa casa, minha mãe ficou olhando-me com um brilho no olhar. Lá fui eu. Pude observar diversas nuances de uma manhã de verão interiorana. As chaminés das casas espelindo fumaça no ar, os raios de sol atravessando por entre os galhos dos pinheiros, os quero-queros fazendo algazarra no gramado, as vacas sendo ordenhadas no curral, os guapecas latindo nas coxilhas, o som da serra-fita cortando madeira. Caminhava por uma estradinha poeirenta, passava por um pequeno córrego até chegar num mata-burro (pra quem não sabe é um portão feito em forma de V ou L para que as criações não saiam mas que permite a passagem de gente). Passando este mata-burro já avistava a escola. Mais 10 minutos cheguei na escola.

Era uma casa velha feita de madeira. No pátio existiam alguns pés de pêssego que eram disputados pela piazada na hora do recreio. A organização da sala era muito interessante. Havia um velho quadro negro, divido pela professora (dona Júlia) em quatro partes. Calma eu explico. Como não havia outras salas disponíveis a sala era dividida da primeira a quarta série, existiam quatro fileiras de carteiras, uma para cada série. Senão me engano na quarta série tinham apenas uma menina e um garoto, nas outras séries no máximo seis alunos. A professora desdobrava-se para passar matemática e português (as duas únicas matérias que existiam) para as quatro séries.

Desde a primeira série já gostava de resolver continhas (hoje estou enferrujado, nem uma integral polinomial consigo resolver rs). Quando a professora perguntava se alguém queria resolver a continha no quadro, erguia a mão e ia para o quadro resolver. Estava na primeira série mas por diversas vezes resolvia as continhas da segunda, terceira e quarta série. Na matéria de português gostava das estórias contadas pela cartilha que a professora lia.

O recreio então era a maior diversão, uma algazarra e um grande corre-corre de crianças. Por um tempo minha mãe foi a merendeira da escola. Todo o dia ela trazia uma bacia de pão fatiado e um balde de suco. Como era gostoso. As canecas eram compartilhadas pois não havia suficientes para todas as crianças.

Depois que a aula findava, perto do meio-dia, voltava pra casa, almoçava e a tarde fazia as tarefas que a professora tinha passado. E assim foi passando o ano. No final de ano letivo houve um conselho de classe com os pais dos alunos. Fiquei nervoso. Ao final correu tudo bem, minha professora teceu muitos elogios pelo meu desempenho, salvo algumas briguinhas no recreio (rs). Meu pai comprou-me uma conga e uma calça para eu usar no próximo ano de estudo.

Ao terminar de contar esta história para a minha sobrinha, ela olhou-me fixamente e disse: – tio, vou ser tão estudiosa e inteligente igual você foi. Eu, apenas dei-lhe um beijo em sua testa de felicidade.

A educação é o maior legado que os pais podem dar à um filho.

A técnica infalível

Final de semana ataquei de cozinheiro, meu tio e meu avô não reclamaram. Também era a única opção deles (rs). Explico: minha tia foi para Santa Catarina fazer bolachas de melado juntamente com a minha mãe. No domingo à noite ela voltou com dois baldes cheios de bolacha, óbvio que já atacamos algumas. Sabem me deu uma nostalgia ao comer aquelas bolachas, eu conto a história:

Todo o ano na véspera do Natal minha amada mãe faz bolachas de melado e de polvilho. Quando eu e meu grande irmão éramos pequenos minha mãe fazia muitas bolachas com a ajuda de minha avó paterna (in memorian) e fazia uma distribuição entre os vizinhos e parentes.

Eu e meu irmão ficávamos observando o jeito dela fazer as bolachas. A mesa ficava repleta, coisa linda de ver. As bolachas eram feitas com o auxílio de algumas fôrmas com diferentes formatos (estrelas, bichos, árvores de Natal, etc). Depois ajudávamos nossa mãe a assar as bolachas num forno de barro que ela fez com a ajuda de minha avó. Lembro-me que depois de assadas já comíamos algumas ainda quentes e levávamos uma bronca porque podia causar dor de barriga. Quem já fez isto uma vez na vida sabe do gosto que tem: gosto de infância.

Depois de assadas vinha a parte legal. Minha mãe fazia um tipo de cobertura de clara de ovo para as bolachas e enfeitava-as com açúcar granulado colorido. Ficavam lindas de se ver e comer. Ao final ela pegava um jogo de latas azuis com detalhes floridos que ganhou de sua mãe (in memorian), colocava as bolachas dentro e guardava as latas em cima do armário.

Eu e meu irmão inventamos uma técnica para ‘roubar’ as bolachas. Como éramos pequenos não conseguíamos pegar as latas. Puxávamos uma cadeira perto do armário, meu irmão segurava esta cadeira, eu subia nela e com muito esforço conseguia puxar a lata de bolachas pra baixo. Aprendendo a ajúda mutua desde pequeno.

Com a lata em mãos, abríamos ela, despejávamos as bolachas na mesa, pegávamos umas três bolachas para cada um e apenas lambíamos a cobertura com açúcar até a bolacha ficar sem cobertura alguma. Colocávamos novamente estas bolachas no fundo da lata com as que ainda estavam enfeitadas por cima para que nossa mãe não desconfiasse de nada.

Ela só percebia a arte que fazíamos com as bolachas quando as bolachas estavam acabando. Ouvíamos seu sermão, mas podíamos perceber a sua felicidade em nos proporcionar a oportunidade de comer as suas deliciosas bolachas de melado.

Quer ver a mulherzinha?

1984. O minuano soprava forte nas coxilhas catarinenses. Embaixo do pinheiral um garotinho magricela fazia ecoar batidas secas de seu machadinho. Seus longos cabelos ao vento relíquias de uma promessa que sua mãe fez quando este tinha quase 2 anos de idade e ainda não caminhava. É a fé move montanhas.

Alguns minutos passados. A tarde estava com um céu azul digno de uma paisagem de Monet. Ao longe duas conhecidas lavadeiras aproximavam-se com seus cestos de roupa. Na época lavavam-se as roupas nas pedras de um riacho que existia após o pinheiral. Chegaram perto do garotinho e começaram a rir dele. Ambas falaram em uníssona voz. Piazinho, com este cabelo comprido você está parecendo uma mulherzinha.

O garotinho  imediatamente sem ninguém lhe ensinar replicou: – quer ver a mulherzinha?

Baixou suas calças, pegou seu instrumento e balançou para as duas lavadeiras dizendo: – veja aqui o tamanho da mulherzinha. As mesmas saíram falando impropérios e ameaçando-o em contar para os seus pais seu ato. O garoto como se nada houvesse acontecido terminou seus afazeres e foi pra casa.

Ao chegar o garotinho relatou o ocorrido para o seu pai e sua mãe que sempre lhe ensinaram a contar as coisas que ele fazia. Sua mãe queria repreendê-lo mas seu pai interpôs-se, pegou-o no colo e recitou esta frase com um sorriso nos lábios: isto mesmo meu filho não deixe mulher nenhuma duvidar de sua macheza. E completou dizendo pra mãe: foram elas que provocaram o ‘piá’.

Ao final do ano, promessa cumprida, 7 anos de idade com cabelo cortado com máquina número 2 e uma lição aprendida: jamais provoque a virilidade de um homem.