Os pés de araçá

Desde pequeno que adoro conviver com a natureza. Já publiquei alguns posts sobre algumas peripécias da minha infância bucólica no interior catarinense. Sempre que posso adoro passear por parques, adentrar a mata e fazer uma caminhada. Isto renova as minhas energias.

Nestes meus 34 anos já perdi a conta de quantas árvores já plantei. A primeira árvore plantada eu me recordo. Eu tinha 5 anos de idade, ganhei uma mudinha de pinheiro araucária do meu pai e plantei num gramado que tinha perto da nossa casa de madeira. Quase 25 anos depois, por uma coincidência destas que o destino nos prega, juntamente com meu irmão passamos pelo local onde morávamos. Pra minha alegria, lá estava o pé de pinheiro, ainda em fase de crescimento.

O tempo foi passando, lembro-me dos pés de abacate, tinha que deixar a semente num vidro com água até adquirir um certo tamanho e depois fazer o plantio definitivo. Os pés de pêssego, de laranja, de mimosa, de café (sim plantei dois pequeninos pés de café em frente a casa da minha tia aqui em Curitiba).

Agora na Páscoa, juntamente com toda a família, fomos fazer um almoço campeiro numa chácara no interior catarinense. Já na chegada fui escalado para subir num grande pé de caqui para retirá-los para os meus sobrinhos. Numa sacolinha de plástico notei algumas mudinhas que logo reconheci serem pés de araçá-rosa. Peguei uma cortadeira, chamei meus sobrinhos para me ajudar e lá fomos fazer o plantio.

Como criança tem uma curiosidade já me perguntaram pra que eu queria plantar aquelas arvorezinhas (rs). Como bom tio expliquei o motivo e disse que as arvorezinhas davam frutinhas para comer. En passant, em frente a casa da minha tia também tem um pé de araçá-rosa. Chegamos perto de um tanque, eu fazia os buracos com a cortadeira, cada um plantava uma muda. Ao final suas mãos estavam pretas de terra. Ao todo plantamos 50 pés de araçá-rosa ao redor do tanque.

Chegando no velho casarão de madeira, já sentimos de longe o cheiro de um um churrasco sendo preparado. Eles correram contar a novidade para os meus pais.

Experimente um dia plantar uma árvore, as secretarias do meio ambiente doam mudas. Certamente que a natureza vai te agradecer. Existe até um projeto de um site de buscas (Eco4Planet) que incentiva o plantio de árvores quando você utiliza seu mecanismo de pesquisa.

O pescador

Sabe aquela história que todo mundo tem sobre pescarias, então, também tenho algumas histórias divertidas com relação à pescaria.

Nas férias que passávamos na chácara dos meus tios (eu e meu irmão) uma das coisas que eu adorava fazer era pescar. Na chácara do meu tio existia um pequeno tanque. No verão, naquelas tardes ensolaradas do interior, eu pegava meu anzol, adentrava o quintal da minha tia para retirar minhocas. Colocava-as numa latinha de massa de tomate e caminhava em direção ao tanque.

Ao lado do tanque havia um gramado muito bonito. Também havia um pé de pêra.  Eu arrumava meu anzol, arremessava a isca ao meio do tanque e deitava-me embaixo do pé de pêra observando apenas o cantar dos canários e dos sabiás. Ficava lá numa calma que inúmeras vezes acabei dormindo e quando acordava verificava que meu anzol tinha fisgado alguma coisa, normalmente carás. Devolvia o peixe ao tanque e voltava a lançar a isca, apenas levava para casa uns dois ou três que eu preparava e comia. Quando não estava pegando nada, subia no pé de pêra, retirava algumas, descia, cortava uma em pequenos pedaços e colocava para os pássaros comerem. Claro que as outras eu comia.

Na cidade dos meus pais, reuníamos entre quatro à seis gurise íamos pescar nos tanques de um chácara que tem perto da casa dos meus pais. Era a maior diversão, ficávamos apostando quem pegaria o maior número de peixes e quem pegaria o maior. Geralmente apenas fisgávamos pequenos lambaris que fritávamos com farinha de rosca. Quando alguém conseguia fisgar uma traíra era a maior alegria. Quantas vezes tivemos que sair correndo e nos esconder no mato porque os donos do tanque estavam passando (rs). Após a chuva então era quase que sagrado convidar os guris da rua e ir pescar.

Passava muitas tardes pescando, filosofando sobre a vida, me divertindo. A última vez que eu fui pescar levei minha sobrinha junto, pensem na alegria da baixinha e na minha. Aqui na selva de pedras apenas me restam as lembranças das belas pescarias, mas, quando me sobrar tempo irei pescar para matar um pouco a saudade.

Corre!

Mais uma grande lembrança (dolorida rs) da época que eu passava as férias na chácara dos meus tios. Estávamos eu, meu grande irmão e meu primo visitando nossas primas. Um lugar muito bonito, cercado por muitas plantações de soja e milho. Na época meu irmão queria encontrar nó de pinheiro para levar à um colega do seu trabalho para ele fazer uma éspecie de lustre (ficou muito bonito).

Chegamos na casa de uma prima nossa, seu esposo é um homem muito gente boa. Depois de um almoço regado à galinha caipira, aipim e batata doce falamos com ele para nos dizer onde podíamos encontrar nós de pinheiro. Ele nos passou as coordenadas, mas alertou-nos para tomar cuidado com algumas vespas que tinham atacado um dos seus cavalos. Devíamos tê-lo escutado.

Lá fomos. Começamos a percorrer um trecho muito bonito. Havia uma pequena mascente de água no meio de um vale cercado por árvores nativas (canela, pinheiro, imbuia). Uma água cristalina e pura com sabor sem igual. E o cantar dos sabiás então, coisa linda de se ouvir. Encontramos alguns nós caídos ao lado do corrego da nascente e começamos a colocá-los em um saco.

Meu irmão falou que subiria a encosta até um grande pinheiro ao lado de um enorme cerne de imbuia tombado. Ok, lá fomos. Encontramos belos nós de pinheiro ao lado deste cerne de imbuia. Notamos que o cerne estava coberto por bromélias e orquídeas. Meu irmão resolveu retirar uma para levar pra minha tia. Péssima ideia. Só lembro dele sair correndo encosta acima com as mãos protejendo o rosto. Eu e meu primo que estávamos acima dele subimos em disparada. Só escutávamos um zumbindo forte atrás de nós.

Depois de 10 minutos, paramos. Quando vimos meu irmão levamos um susto. Lembro-me até hoje desta cena. Ele estava com uma camiseta branca. Suas costas estavam pretas de tanta vespa que havia nela. Retiramos sua camiseta, algumas vespas estavam grudadas em suas costas. Era uma espécie de vespa preta grande que tenha uma ferroada muito dolorida. Percebemos que ele estava pálido. Nos apressamos em levá-lo para a casa da minha prima.

Chegando lá ele pos tudo o que tinha no estomago pra fora, a sorte que os parentes da minha prima tinham soro e antiinflamatório. Ele ficou a tarde toda de cama. Voltamos no dia seguinte pra cidade e levamos os nós para o amigo do  meu irmão fazer os lustres. Estes lustres custaram caro.

Comidas da roça

Madrugada gelada; o céu azul estrelado retratando uma pintura de um grande artista; o cantar do galo; os raios do sol anunciando o novo dia; o frescor e o aroma do orvalho, doce perfume de nostalgia. O bezerro procurando a “ubre” da vaca; os sabiás no mourão entoando uma melodia; a velha chaleira tilintando na chapa; a costela e o salame defumando; o café em perfeita harmonia.

Ótimos tempos, inesquecíveis lembranças, saudades eternas de pessoas, lugares… A passagem comprada, o ônibus para o interior, pela janela as riquezas da roça (gado, porco, ovelha, galinha, trigo, milho, feijão, soja). A poeira na roupa, o linguajar caipira.

Bença vô, bença vó (ambos in memorian). O leite tomado direto da fonte, quente e espumado. As “carpidas” de roça, as roçadas com meu avô (detalhe: meu avô era deficiente, possuía um lado do corpo paralisado, não falava devido a um derrame cerebral e jamais deixou de trabalhar). As espigas de milho verde assadas na estufa de fumo (meu recorde foi de quinze espigas). As pêras e as laranjas colhidas no pé. As sobremesas que minha tia fazia, em especial, as cucas de farofa, a coalhada e o “chico balanceado”.

Aquela mesa repleta de guloseimas, coisa linda de se ver e comer. A costelinha de porco com quirera, a polenta com frango caipira (hoje tem frango moderno rs), a moranga/abóbora com leite, a batata doce assada, o arroz carreteiro na velha panela de ferro, a carne de porco em lata (imersa na banha para conservar) com virado de feijão. A canjica com leite, o cuscuz e o angu (certa vez minha avó paterna teve problemas intestinais por causa do angu), as paçocas de amendoim.

Lembranças que quando posso revivo no meu cotidiano. Agora que a minha tia adquiriu um fogão a lenha ficou mais fácil fazer as comidas da roça. Domingo passado, um frio de lascar, levantei cedo, fiz fogo, pus uma canjica para cozinhar, no almoço tínhamos sobremesa. Hoje em dia, tadinha das crianças, MC Donalds, Coca Cola e fast foods em geral.