Olha o picolé

É curioso notar como algumas nuances do cotidiano nos remetem à fatos vivenciados à muito tempo em nossa vida.

Dia destes, tarde agradável de sol em pleno inverno curitibano (rs), depois de passar na lotérica fazer uma fézinha, depois passei no supermercado comprar uma caixinha de bolo petit gateau para fazer, algo me recordou de uma bela recordação da minha infância. No caminho do mercado passo por alguns adolescentes que estão andando de skate e conversando em uma esquina. Aquelas duas morenaças entre eles, ave-maria, corpos de mulher, bem, deixa quieto. Chego em casa, rapaz prendado que sou,faço o petit gateau e volto até uma sorveteria comprar sorvete de creme para acompanhar o petit gateau (nham). Vendo a enorme quantidade de sabores do buffet de sorvetes sou transportado no tempo para quase 25 anos atrás.

Meus pais sempre ensinaram eu e meus irmãos a valorizar o trabalho. Na minha descrição ‘quem sou eu’ conto que já trabalhei com diversas coisas em diversos diferentes lugares, e, também já vui vendedor de picolés.

Lembro-me que a minha madrinha de primeira comunhão tinha uns carrinhos de picolé e juntamente com os seus dois filhos vendíamos os picolés para ela em troca de uma pequena comissão que, na maioria das vezes, era utilizada para comprar figurinhas (história para outro post). Carinho abastecido de picolés e ‘moreninhas’ (sorvetes de bauninha ou creme em formato oval com cobertura de uma fina camada de chocolate, uma delícia), saímos em dupla vender os picolés.

Para chamar à atenção da clientela tínhamos um tipo de apito sonoro (me esqueci do nome) parecido com aqueles instrumentos de sopro que os peruanos utilizam nos concertos da Boca Maldita aqui em Curitiba (rs). Cada um possuía um jeito peculiar de ‘tocar’ o instrumento ‘compondo’ melodias próprias’. Com o passar do tempo já tínhamos nossa rota definida bem como nossos clientes fiéis. Lembro-me que eu sempre vendia cinco picolés de milho verde (rs) para um velhinho que morava perto da escola porque ele me achava parecido com um dos seus netos.

Era uma tarefa divertida, mas não era muito fácil. Tínhamos que empurrar o carrinho por ruas de chão entre as pedras, por ‘intermináveis’ subidas de paralelepípedo, mas sempre dávamos um jeitinho! Colocávamos alguns picolés a mais no carrinho para comermos durante o trajeto, sendo que o que eu mais apreciava era o picolé de nata.

Ficávamos chateados quando chovia no meio do caminho, voltávamos molhados para casa e não vendíamos nada. Outra coisa, a concorrência era super leal (fato raro hoje em dia) entre a gente e os outros vendedores de picolé, cada um tinha sua rota e clientela definida. Olhem, a gente andava, tinha dia que chegávamos a vender dois carrinhos cheios de picolé. Com a comissão em mãos corríamos para a banquinha perto da escola comprar figurinhas.

Voltei pra casa nostálgico e degustei o petit gateau com sorvete de creme.

Encerando a casa

Final de semana em casa na companhia da família. Como o contato familiar faz bem à nossa vida. Meus sobrinhos como sempre não me deram folga, haja folego. Uma garoa tomava conta da cidade, logo, ficamos dentro de casa. Minha esperta sobrinha pegou um álbum de fotos e começou a me mostrar perguntando-me quem era quem. Nossa a tia era bem gordinha (rs).

Minha mãe tem quadros na parede com fotos das minhas irmãs. Parei em frente à foto da minha irmã caçula e fiquei pensativo por algum tempo vendo-a tão pequenina naquela foto. Na época da foto ela devia ter um ano e alguns meses, estava com um vestidinho azul com um detalhe em vermelho, sapatinho branco daqueles tipo bailarina e duas marias-chiquinhas no cabelo. O rostinho gordinho e um sorriso nos lábios. Quanta recordação boa veio em minha mente.

Quando minha mãe deu à luz a minha irmã caçula eu tinha 14 anos de idade. Lembro-me que adorava brincar com ela. Uma de nossas brincadeiras prediletas era a seguinte: minha mãe fazia tapetes com retalhos de pano e sacos de batata, ela costurava cada tirinha no saco até preencher todos os espaços, ficava um tapete muito bonito com diversas tonalidades de cores. Pegava aquele tapete, punha minha irmãzinha em cima dele e puxava-a pelo assoalho de madeira de nossa casa. Fazia isto inúmeras vezes apenas para ver as doces gargalhadas que a minha irmã soltava. Minha mãe comentava: estão encerando a casa?

O tempo foi passando, ela foi crescendo, na época escolar eu era seu professor particular de matemática (era para todos os meus irmãos). Na sua adolescência tive muitos gastos porque comprava roupas e bugigangas para ela, fora as rodadas em pizzarias. Ela foi uma adolescente um pouco complicada devido as suas ‘amizades’.

Hoje em dia, está mais madura, cuida do seu filhinho com um zelo ímpar. É, estou envelhecendo, pensei comigo ao avaliar aquele quadro e depois vendo-a dando banho no seu filho. Coisas que somente o tempo é capaz de fazer.

À chuva, ao dia, ao vento, filosofia

Tarde chuvosa em Curitiba, um vento frio espalha as folhas da pata-de-vaca, as ruas quase desertas parecendo cidade do interior, de outra época (Idade Média?), o casal de canários comendo quirera no galho do pessegueiro, uma calma, um silêncio na casa, uma semana de férias, no celular escolho Cranberries – Just My Imagination.

Uma possibilidade te restringe de outras inúmeras possibilidades.

A vida é assim. Eu escolhi ouvir Cranberries neste momento, mas poderia estar ouvindo Teodoro & Sampaio, Kid Abelha, Stones, Enya, Alan Jackson, Caruso (bom foram os nomes que me vieram à mente). Paro esta analogia por aqui que isto rende outro post.

Pensativo (que novidade?), debaixo das cobertas, nada de interessante na TV, degustando uma canjica com leite, lendo O Arquipélago II (Érico Veríssimo, O Tempo e o Vento). Me senti um pouco Floriano Cambará com suas argumentações sobre o seu eu, sobre se o estilo de vida está correto (perguntas! perguntas!).

Sabe a chuva ajuda a reflexão: quanta coisa deixei de fazer antes de vir para a big city. Aprendizagem creio que seja a palavra correta.

Estava me lembrando de uma tarde chuvosa onde mi passione e eu ficamos embaixo das cobertas aquecendo um ao outro, ali deitados querendo que o tempo parasse, que os segundos passassem mais devagar, somente nós dois como Adão e Eva sem ninguém mais em nosso mundo. Doces lembranças. É seu o meu coração.

É, a chuva me deixa nostálgico, romântico e utópico. Mas, utopias que foram realizadas, outras quero concretizar em médio prazo. Sabe aqueles dias que parecem parar no tempo, então, hoje (21/07/11) parece um destes dias, uma “tranquilidade”, um clima chuvoso, guloseimas, ótimas e inesquecíveis lembranças.

Quantos dias chuvosos eu passava ouvindo músicas lembrando das paixões da minha vida. E como é bom ter histórias para lembrar, é a prova de que vivemos.

A velha tapera

Quando visitava a casa dos meus tios no interior gostava de andar pelos campos respirando o ar puro do interior.

Juntamente com meu irmão e primo, gostávamos de visitar uma velha tapera que existia perto de um rio onde no verão a gente tomava banho quase que diariamente. Uma meia hora de caminhada por “carreros”, cruzávamos o rio e chegávamos na velha tapera.

Uma velha casa de madeira abandonada, ao seu redor um grande pomar de diversas variedades de fruta: pêra, maçã, laranja, pêssego, “guabiroba“, amora silvestre. Ficávamos a tarde toda brincando e comendo frutas. Lembro-me de algumas peculiaridades do local onde ficava a velha tapera:

O cantar orquestrado dos sabiás e canários fazendo inveja à Strauss.

O grande pé de aroeira com um galho curvado onde saboreávamos pêras, maçãs e pêssegos; e admirávamos os chupins e azulões comerem amoras silvestres.

O “guapeca” que nos acompanhava sempre abanando o rabo com o pequeno graveto na boca.

As angolistas entoando “tô fraco, tô fraco” e procurando insetos no chão.

As paredes cheirando a fumaça pintadas pela tinta do “picumã”.

O grande cerne de imbuia, ninho das temidas vespas pretas.

O cheiro das mimosas, amarelas como o Sol, doces como o mel.

O curral cercado com palanques de cambará.

Sempre que voltávamos para a casa da minha tia trazíamos uma sacola cheia de frutas que compartilhávamos com o restante da família. Num final de semana que fui visitar meus amados pais, fui me aventurar com meus sobrinhos atrás de frutas silvestres, conseguimos encontrar amoras, chegamos em casa, pegamos três canecas, pus açúcar, macerei as amoras, uma colherzinha para cada um e comemos de ficar com o beiço roxo (rs) igualzinho fazia com meu irmão e com o meu primo.

Os craques da bola

Sempre gostei de jogar futebol, mas nunca idolatrei nenhum jogador diga-se de passagem. Perto da minha casa tinha um campinho de terra batida, era o “Maracanã” da piazada da rua. Estudava cedo, chegava em casa meio-dia devorava o almoço, pegava a bola que o meu pai comprou pra gente, saia casa por casa convidando a piazada para uma bela pelada neste campinho.

Lembro até os apelidos da turma: gordo, crédi, marcelo (in memorian), julio, djoninhas, gil, telinho, batatinha, ricardinho, beto (meu mano), ceceu (meu primo). Na época quase ninguém jogava com calçado, era descalço mesmo, da sola do pé ficar grossa. Passava a tarde toda jogando bola, e jogava muito bem, e pensar que eu poderia estar milionário hoje (rs). O gordo sempre queria eu no time dele, tinham uns que viviam chorando falta (claro que não vou contar quem). Até público feminino existia, claro que não era pra me ver, já que minha “beleza” sempre assustou as meninas (rs).

Lembro do dia que adentramos a mata para cortar as madeiras para fazer as traves, facão emprestado do meu pai, cortadeira para fazer os buracos e montamos as traves. Quando não tinha quorum suficiente para montar dois times, jogávamos dois contra dois valendo gol só de dentro da pequena área, ou jogávamos rebatida (haviam várias pontuações, bola pelo meio das pernas 6 pontos, nas traves laterais 5 pontos, na trave superior 10 pontos, no ângulo 15 pontos, escanteio 3 pontos) ou 5 fora (só valia gol com a bola no alto, tipo de cabeça, ou teu companheiro erguendo a bola e você chutando ela de prima, se fizesse 5 gols o goleiro tinha que ficar até 5 bolas pra fora, quem chutasse a quinta pra fora ia pro gol).

E quando alguém fazia um golaço então, pensem na alegria do moleque, pena não termos nenhuma filmadora ou câmera fotográfica para registrar estes momentos, mas o que vale que eles estão registrados em nossa memória.

E quando chovia então, era a maior festa, o jogo nunca parava, ficávamos jogando e chegávamos em casa pingando de molhado e a roupa cheia de lama, minha mãe ficava p da vida com a gente e meu pai nos defendia dizendo deixe os piás aproveitarem a infância.

Um dia deu uma chuva imensa na cidade, noutro dia fomos jogar bola, havia deslizamento de terra ao lado do nosso campinho, cada vez que alguém chutava uma bola pra fora, o jogo ficava parado por uns 10 minutos até recuperar a bola que caia no buraco feito pela chuva. Lembro que alguns ficavam com birra de buscar a bola. Teve até um episódio onde cortei o pé fundo quando fui buscar a bola, tive que tomar uma benzetacil na bunda, que fiquei dois dias sem poder andar.

O pessoal foi crescendo, alguns foram jogar bola em campos de areia, outros em quadras, já com quichute ou chuteira e o nosso campinho foi ficando abandonado. Dia destes passei com meus sobrinhos por lá, nem sombra do nosso campinho, construíram casas no lugar dele.

Sempre que posso, convido o meu vizinho, levo meus sobrinhos, achamos uns terrenos baldios e jogo bola com eles pra recordar meus bons tempos de infância.

Comidas da roça

Madrugada gelada; o céu azul estrelado retratando uma pintura de um grande artista; o cantar do galo; os raios do sol anunciando o novo dia; o frescor e o aroma do orvalho, doce perfume de nostalgia. O bezerro procurando a “ubre” da vaca; os sabiás no mourão entoando uma melodia; a velha chaleira tilintando na chapa; a costela e o salame defumando; o café em perfeita harmonia.

Ótimos tempos, inesquecíveis lembranças, saudades eternas de pessoas, lugares… A passagem comprada, o ônibus para o interior, pela janela as riquezas da roça (gado, porco, ovelha, galinha, trigo, milho, feijão, soja). A poeira na roupa, o linguajar caipira.

Bença vô, bença vó (ambos in memorian). O leite tomado direto da fonte, quente e espumado. As “carpidas” de roça, as roçadas com meu avô (detalhe: meu avô era deficiente, possuía um lado do corpo paralisado, não falava devido a um derrame cerebral e jamais deixou de trabalhar). As espigas de milho verde assadas na estufa de fumo (meu recorde foi de quinze espigas). As pêras e as laranjas colhidas no pé. As sobremesas que minha tia fazia, em especial, as cucas de farofa, a coalhada e o “chico balanceado”.

Aquela mesa repleta de guloseimas, coisa linda de se ver e comer. A costelinha de porco com quirera, a polenta com frango caipira (hoje tem frango moderno rs), a moranga/abóbora com leite, a batata doce assada, o arroz carreteiro na velha panela de ferro, a carne de porco em lata (imersa na banha para conservar) com virado de feijão. A canjica com leite, o cuscuz e o angu (certa vez minha avó paterna teve problemas intestinais por causa do angu), as paçocas de amendoim.

Lembranças que quando posso revivo no meu cotidiano. Agora que a minha tia adquiriu um fogão a lenha ficou mais fácil fazer as comidas da roça. Domingo passado, um frio de lascar, levantei cedo, fiz fogo, pus uma canjica para cozinhar, no almoço tínhamos sobremesa. Hoje em dia, tadinha das crianças, MC Donalds, Coca Cola e fast foods em geral.

Sapecada em família

Sábado passado pego o ônibus e rumo para Santa Catarina rever a família. Chego na cidade, 45 minutos de caminhada porque o ônibus que vai para o bairro onde minha família mora demoraria 40 minutos para sair, sabe como é, cidade do interior, é assim mesmo.

Benção meu pai, benção minha mãe, meus sobrinhos pedindo colo, meu irmão com o seu primeiro possante, clima familiar excelente. Após o almoço, reunimos a família, os apetrechos e rumamos ao interior da cidade tirar pinhão.

Desde quando me entendo por gente, como diz meu pai, que sempre participei de excursões para tirar pinhão. Lembro que reunia-me com os amigos da rua e fazíamos a maior festa. Mas, voltando a história em questão, chegamos numa chacará com uma “tapera” abandonada. Minha sobrinha e meu sobrinho foram ver as “galinhas diferentes” (angolistas ou galinhas de Angola). Eu e meu pai tiramos as esporas do carro (também conhecido como pé-de-ferro), chamamos o restante da trupe, passamos por um curral, caminhamos um pouco e chegamos num pinheiral, sei lá, deve ter mais de 100 pinheiros.

Nos pinheiros menores derrubávamos as pinhas com uma taquara, meus braços e ombros ainda estão doloridos. Nos pinheiros maiores, ora meu pai, ora eu subia com a ajuda das esporas. Minha mãe, irmã e sobrinhos “desfalhavam” as pinhas e separavam os pinhões. Show ver meus pequenos sobrinhos (6 e 2 anos) “catando” pinhão no gramado.

Depois de algum tempo, convidei meus sobrinhos para pegar “grimpa” (também conhecido por sapé) para fazer uma sapecada de pinhão ao melhor estilo e tradição campeira do sul do Brasil. Para quem não sabe, a sapecada consiste em você fazer um monte com grimpa seca, semear pinhões pelo meio e atear fogo até as grimpas queimarem bem. Depois é só retirar os pinhões assados e saboreá-los (tem gosto de nostalgia, tradição, história, pinhão, rs). Tadinhos dos meus sobrinhos, descobriram da pior maneira que é preciso esfriar um pouco os pinhões antes de pegá-los.

No domingo, dia das mães, almoço em família regado a pinhão cozido com sal. Meu pai distribuiu um pouco para os vizinhos e parentes. Eu trouxe um pouco para Curitiba encomendado pela primeira dama (eu tento agradar). E lá se foi mais um final de semana com boa história para contar.