A primeira comunhão e o trem

Sempre fui uma pessoa que acreditou em Deus, mas, sou avesso à dogmas e ritos religiosos. Na época devia ter uns 12 anos, minha família era católica e minha mãe matriculou-me na aulas de primeira comunhão que acontecia aos sábados numa sala que ficava ao lado da igreja do bairro. Atrás desta igreja tinha uma linha férrea que era a minha salvação, já entenderão o porquê.

As benditas aulas de primeira comunhão aconteciam todo o sábado cedinho, às 8 horas para ser exato. Juntamente com mais dois colegas andávamos meia hora até chegar na igreja. Olhem as ‘aulas’ eram um porre. A ‘aula’ era ministrada por uma beata alemoa que me fazia dormir na cadeira. Nunca entendi o porque devo me confessar com alguém que é um ser humano igualzinho a mim, cheio de defeitos e pecados. Entendo que devo confessar minhas transgressões diretamente ao Criador, sem precisar de intermediário. Também entendo que a fé, sem conotação religiosa, é capaz de proezas incríveis em nossa vida. O extremismo religioso só traz desigualdades e tristezas para as famílias.

No começo da aula era feita a chamada, depois havia um intervalo que salvava o nosso dia. Presença garantida na chamada, juntamente com meus colegas que vinham comigo pegávamos nossas malas, saímos de fininho até a estação ferroviária e ficávamos esperando o trem passar. Era uma aventura (perigosa) pegar o trem em movimento. Tínhamos que correr paralelamente ao trem e subir na escada que tinha nos vagões. Após estarmos em cima do trem era só alegria, sentávamos em cima de um vagão e admirávamos a bela paisagem até o trem chegar em outra estação que ficava no interior da cidade. Descíamos na estação e voltávamos a pé pelos trilhos do trem até chegar perto da rua onde morávamos.

E assim foram as aulas de primeira comunhão, salvas pelo trem, até chegar a missa de Primeira Comunhão. Um dia antes fomos obrigados a nos confessar com o padre, fui irônico com o sacerdote perguntando quantos Pai-Nossos eu devia rezar por ‘gazear’ as aulas da primeira comunhão e ir passear de trem (rs). Na missa, com toda a família reunida, fiquei num cantinho no início, sai pra fora de fininho pra conversar com as meninas atrás da igreja e só voltei na hora da hóstia (que engoli rapidamente). A única coisa que salvou foi o traje das meninas, todas de branco, algumas com tiaras na cabeça, com suas saias rendadas, algumas mostrando parte das coxas (hehe).

Vejam não estou dizendo que não é importante participar de algum evento religioso (missa, culto, etc), apenas estou citando alguns dogmas que fui obrigado a fazer a contragosto. Cada um de nós tem seu jeito de fazer suas preçes e seus momentos de fé.

Hoje vendo algumas fotos tiradas na época com aquela roupa social (camisa branca, calça social azul e gravatinha borboleta preta) dou risada daquela situação e me recordo do trem.

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